Palavras chaves: fé – razão – Reino de Deus – Oscar
Cullmann – Jürgen Moltmann – Martin Buber – Ernst Bloch - vida eterna.
Tudo aquilo que não é visível ou ainda não
aconteceu, significa que não existe ou que ainda não se manifestou? Não
sabemos. Muito depende da nossa abordagem: fé ou razão? Quando o assunto é “espiritual”
a nossa tendência é priorizar a fé, todavia existe o risco de espiritualizar
aquilo que não pode ser espiritualizado. Quando o assunto é secular, a nossa tendência
é priorizar a razão, mas neste caso também existe o perigo de racionalizar ou
que não pode ser racionalizado.
Todavia, o ser humano, de qualquer religião ele
seja, até um ateu, vive a sua existência numa continua tensão dialética entre a
fé e a razão: dependendo do assunto e do momento, priorizará ou uma ou outra.
Um
exemplo esclarecedor é a “ausência” do Reino de Deus.
Em Stuttgart, na Alemanha, em 1933, o filosofo Martin
Buber teve um debate com um perito em Novo Testamento sobre por que ele, judeu
que admirava Jesus, mesmo assim não podia aceita-lo. Para os cristãos, ele
afirmou, os judeus deviam parecer obstinados quando firmemente aguardavam a
vinda de um Messias. Porque não reconhecer Jesus como o Messias? A Igreja
repousa sobre a fé de que Cristo veio e que essa é a redenção que Deus concedeu
à humanidade. Mas os israelitas não podem crer nisso, por que eles sabem com
mais profundidade, mais realidade, que a história do mundo não virou de cabeça
para baixo desde os fundamentos e que o mundo não foi redimido. Os judeus
sentem a falta de redenção. A declaração de Buber assumiu um ar de lamentação
aumentado nos anos seguintes, pois 1933 foi o ano em que Adolf Hitler subiu ao
poder na Alemanha, acabando com qualquer duvida acerca do caráter não redimido
do mundo. Como poderia um verdadeiro Messias permitir que tal mundo continuasse
existindo? Como poderia existir um Libertador sem libertação?
A única explicação possível encontra-se nos
ensinamentos de Jesus de que o Reino de Deus vem em estágios. E’ “agora” e
também “ainda não”, presente e também futuro. Às vezes Jesus enfatizava o
aspecto presente (“o reino está próximo” ou “dentro de vos”), em outras
ocasiões dizia que o reino jaz no futuro (“venha o teu reino”). Martin Buber
está certo quando observa que a vontade de Deus não está aparentemente sendo
feita na terra como é feita no céu. Sob alguns aspectos importantes, o Reino
ainda não veio completamente.
Talvez o próprio Jesus tivesse concordado com a
afirmação de Buber sobre o estado do mundo. “No mundo tereis aflições”, disse
Jesus aos seus discípulos. Durante um período de tempo, o Reino de Deus deve
existir junto com uma rebelião ativa contra Deus. O Reino de Deus avança
lentamente, humildemente, como um exercito secreto de invasão atuando dentro
dos reinos governados por Satanás.
A
situação, hoje, á mesma.
Onde estão os efeitos transformadores do Evangelho,
onde estão os sinais do Reino de Deus? A Igreja está aí sim, enquanto o Reino
de Deus parece continuar distante. Violência, pobreza, fome, sofrimento,
injustiça social, morte: são todos sinais que revelam a “ausência” do Reino de
Deus.
Para a cristandade e respectivamente para a
humanidade, o termo “Reino de Deus” assinala uma promessa ainda não cumprida e
uma esperança da qual se pede razão. A impressão, a acusação ou a simples
constatação lacônica que apesar da cristianização de grande parte do nosso mundo,
todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação, constrange a
Igreja de Cristo e a confronta com algumas perguntas: o Reino de Deus, ele
ainda virá? Jesus trouxe a presença do Reino ou somente a esperança de um Reino
futuro?
São muitas as
respostas típicas da teologia de nossa época a respeito do Reino de Deus e da
sua esperança escatológica. Esperança sempre foi assunto central na teologia e
na Igreja. Parafraseando o teólogo alemão Jurgen Moltman, um comportamento,
para ter sentido, só é possível dentro de um horizonte de esperança; do
contrário todas as decisões e ações vão desesperadamente ao encontro do nada,
ficando suspensas no ar, sem compreensão e sem sentido.
A teoria do “já é e ainda não” do teólogo suíço
Oscar Cullmann, nós ajuda a entender a tensão escatológica entre o Reino de
Deus presente (oculto, escondido, kenotico) e o Reino de Deus que há por vir
(novos céus e uma nova terra, sem sofrimento nem lagrimas).
Oscar Culmann, usando uma terminologia da Segunda
Guerra Mundial, introduz a noção do Dia D e o Dia V. Os aliados venceram os
nazistas em uma batalha na Normandia, que ficou conhecida como o Dia D. Ali foi
vencida uma batalha, não a guerra. Os nazistas só foram vencidos tempos depois,
no confronto conhecido como Dia V. A grande invasão de Deus se deu no
ministério de Jesus. A vitória foi na cruz do Calvário, onde segundo Paulo,
Jesus despojou os principados e potestades, expondo-os ao desprezo público. Mas,
ainda falta vencer toda obra do mal, que será vencida na Segunda Vinda de
Jesus. Nós vivemos a expectativa do intervalo, entre o Dia D e o Dia V. Assim
podemos entender a tensão dialética do Reino, do “já e ainda não”.
O já é e ainda
não das promessas de Deus.
Sabemos que Deus é atemporal e que, em outras
palavras, está acima do tempo, portanto quando Ele promete algo (por exemplo, o
Messias por meio dos profetas), Ele não promete algo que vai acontecer, mas
algo que já aconteceu. A Sua Palavra e o Seu eterno proposito já se cumpriu:
somente falta a manifestação natural desta promessa. A promessa da parte
de Deus da vinda do Messias, para que a mesma pudesse entrar no tempo, somente
precisava de condições favoráveis (plenitude dos tempos ou kairós de
Deus).
Deus tem o “futuro como propriedade do ser”,
afirmava o filosofo Ernst Bloch, portanto aquilo que está proferido por Ele,
apesar de que seja algo que há por vir, na realidade “já é”. Quando se trata de
promessas divinas, o “ainda não” (ou seja, a sua manifestação) está ligado sim a
algumas condições, mas as mesmas já estão predeterminadas pelo Autor da
promessa.
O teólogo alemão Jürgen Moltmann, no seu livro
“Teologia da Esperança” afirma que uma promessa é a palavra dada que anuncia
uma realidade ainda não existente. Assim a promessa manifesta uma abertura do
ser humano para a história futura, em que se deve esperar o cumprimento da
promessa. Quando se trata de uma promessa divina, isto significa que o futuro
esperado não se desenvolverá a partir do circulo das possibilidades que existem
no presente, mas se realizará a partir daquilo que é possível ao Deus da
promessa. Pode tratar-se, portanto, de coisas que segundo o padrão da
experiência presente aparecem como impossíveis...
... Se uma palavra é palavra de promessa, isto
significa que ele ainda não encontrou sua correspondência na realidade, mas
está em contradição com a realidade presente e experimentável. A dúvida pode
surgir sobre a palavra da promessa, quando, ela é medida pelo padrão da
realidade presente. Ao contrario, surgirá a fé na palavra se a realidade
presente for medida segundo o padrão da palavra da promessa. As promessas de
Deus giram em torno de impossibilidades: se deparam com situações impossíveis
ou ainda não reais.
Mas o que
acontece quando tirarmos a fé do nosso caminho? A teoria do já é e ainda não permanece
valida?
Sim, porque o que está acontecendo neste momento é
um “já é e ainda não” na minha vida enquanto estou escrevendo, já sei o que vou
escrever nas próximas linhas, mas ainda não finalizei este artigo. É também um “já
é e ainda não” da sua vida, enquanto você está lendo, mas ainda não chegou ao
final deste artigo. Se você se levantar neste momento porque o seu almoço está
pronto, não poderá ler o final agora e se você morrer depois do almoço, não
poderá ler o final nunca mais.
Entre o meu pensamento de me levantar da cadeira,
parar de escrever e abraçar a minha esposa, existe uma tensão temporal entre a
ideia e a ação. Eu já decidi de me levantar e abraçar a minha esposa, mas ainda
não a abracei: é um “já é”, mas é também um “ainda não”. E se eu morrer durante
o caminho para chegar até ela, o artigo não será finalizado e o “ainda não”
continuará a não ser para sempre. O
mundo ficará sem o meu artigo e a minha esposa sem o meu abraço: vocês poderão
ler outros artigos, mas não o meu artigo, e a minha esposa poderá receber sim
um abraço, mas somente pelos poucos participantes ao meu velório. Todavia, eu
conseguindo finalizar o meu artigo e em particular abraçar a minha esposa, poderei
mudar ou transformar o meu ser, a minha vida, a minha historia e o meu casamento.
A humanidade vive numa continua tensão entre o
presente e o futuro, entre um “já é” e “ainda não”. O presente é algo que não é
mais na hora que nós antecipamos o futuro com o nosso pensamento, mas ainda não
é futuro quando não se realiza e se manifesta. Desta forma podemos afirmar que
o ser humano vive como suspenso num espaço temporal que é precisamente o “já é
e ainda não”.
A vida, analisada racionalmente, é uma serie quase
infinita de causas e efeitos, na maioria das vezes completamente casuais, durante
períodos de tempos definidos entre o “já é” e o “ainda não”.
A vida assim seria, em minha opinião, muita pouca
coisa: por esta razão prefiro crer que a minha vida seja um “já é” nesta terra
que aguarda um “ainda não” no céu. Sem o
céu a nossa vida, e a minha em particular, não teria sentido nem logica: seria
um cheque sem fundo que nunca seria descontado. Em outras palavras a vida seria
sacanagem.
Apesar da minha tamanha decepção com Deus por causa
da Sua aparente ausência em minha vida, ainda considero a fé nas promessas bíblicas
a melhor opção para a humanidade.
Tudo aquilo que Ele não cumpriu ou deixou de
cumprir em minha vida deve ter uma explicação: ou Ele não me prometeu nada e
estou cobrando o que nunca foi prometido ou estou entre o “já é” e o “ainda não”
e preciso aguardar mais um pouco. Não vai ser fácil aguardar serenamente, enquanto
estou mais perto da minha departida que do meu nascimento, mas precisa
esclarecer que não tenho outras opções.
De qualquer forma, consegui finalizar o artigo e
abraçar a minha esposa (será?): isto significa que ainda estou vivo e
poderei desfrutar mais uns “já é e ainda não” da minha, aparentemente inútil, existência.
Saudações

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