Em
1974, com o Pacto de Lausanne, tentou-se construir uma identidade do movimento
evangélico. Ser evangélico, em primeiro lugar, significa comprometer-se com o
proposito de Deus, reconhecendo a autoridade e o poder da Bíblia, reconhecendo
também a unicidade e a universalidade de Cristo, afirmando que não tem salvação
fora de Cristo, e anunciando o Seu retorno.
Todavia
parece que no Brasil esta identidade não foi alcançada e hoje, na pôs-
modernidade, cada um está indo para o próprio caminho desestruturando a já
frágil identidade evangélica. Uma hermenêutica não saudável tem provocado uma
interpretação das Escrituras errada e até perigosa. O ministério pastoral também
perdeu a sua identidade e está enfrentando, aqui no Brasil, uma crise muito
grande.
O
pastor é quem conduz o rebanho de Deus, segundo a Sua vontade. O pastor é o
responsável por alimentar este rebanho para que ele cresça forte e sadio. O
pastor é aquele foi chamado por Deus para assistir ao rebanho em todas as suas
tribulações. Devido
a inúmeros escândalos, o ofício pastoral foi e está sendo questionada fora e
até mesmo dentro da Igreja. Além disto, o ministério pastoral não está sabendo enfrentar
os desafios pós-modernos.
Uma
característica que podemos destacar no mundo pós-moderno é a ansiedade. Ela é
resultado da multiplicidade de escolhas de um mundo plural e onde não se tem
parâmetros claros de verdade para direcionar estas escolhas. A
consequência foi a pregação de um evangelho imediatista e barato. A igreja
assim se envolveu cada dia mais em um estilo empresarial, buscando estratégias
de marketing, com o objetivo de alcançar – a qualquer custo - o sucesso visível
e imediato, com exaltação do próprio ministério pastoral no lugar de Jesus
Cristo, não proporcionando assim um crescimento saudável dos membros e da
igreja. O pastor jogou fora o discipulado, a visitação e o aconselhamento (falta
de tempo e desinteresse) e fez a escolha de atrair por meios carnais homens
carnais, utilizando depois para segura-los meios mais carnais ainda. Resultado?
Uma comunidade religiosa supérflua que não segue e não cumpre as regras do
Reino. Uma Igreja que perdeu a visão, a sua vocação missionaria, o seu foco,
que fica estagnada, sem conseguir influenciar a sociedade.
Outra
característica do pós-modernismo é o irracionalismo. As heresias modernistas
caíram, mas agora heresias pós-modernas as substituem. O racionalismo, tendo
fracassado, cede lugar ao irracionalismo – e ambos são hostis à revelação de
Deus, ainda que de maneiras diferentes. Os modernistas não criam que a Bíblia
fosse verdadeira. Os pós-modernistas lançaram fora completamente a categoria de
verdade. Fazendo isso, já abriram uma caixa de Pandora de religiões da Nova
Era, sincretismo e caos moral. (VEITH, Jr, Gene Edward. Tempos Pós-Modernos. p.
186s) Assim,
não existem parâmetros absolutos, modelos universais ou paradigmas unívocos.
Outra
característica da pós-modernidade é o desamparo. Este desamparo, também oriundo
da falta de parâmetros claros de verdade se desenvolve no exacerbado sentimento
de isolamento, no individualismo. O individualismo é um dos traços mais
marcantes da modernidade, no período do pós-guerra. Vivemos em uma época de
exacerbado individualismo. O bem-estar pessoal é colocado acima do bem comum.
Os interesses individuais estão acima dos direitos sociais. Muitas
igrejas evangélicas, consciente ou inconscientemente, têm até mesmo adotado
modelos eclesiásticos e pastorais que carregam em si a marca clara do mundo
pós-moderno, especialmente no que se refere à teatralização, à dominação e à
comercialização da religião, como se fora um artigo cultural qualquer.
Julio
Paulo Tavares Zabatiero, meu professor de Teologia Contemporanea na Faculdade Unida de Vitoria (ES), no seu livro “Apascentai a Igreja de Deus no Mundo
Pós-Moderno” relaciona este modelo eclesiológico com a atividade pastoral.
Assim, ele demonstra que a cultura massificada pela televisão tem tornado a
sociedade pós-moderna na “sociedade do espetáculo”. Por esta causa, o
ministério pastoral tem se desenvolvido cada vez mais em grandes eventos, que
só contribuem para aumentar o sentimento de desamparo e solidão do povo. Nessa
sociedade “midiática”, até o culto toma uma nova conotação: ao invés de
centralizar-se na proclamação da Palavra de Deus, o culto evangélico tem tido o
seu foco sobre manifestações visíveis da espiritualidade. Assim, a primeira
tarefa pastoral que Zabatiero propõe é o cuidado com estas seduções da imagem e
do espetáculo, não aceitando o papel que a pós-modernidade tem dado aos líderes
religiosos. O pastor deve, então, cuidar primeiro de si mesmo.
A
despeito de todos os dilemas e necessidades do tempo presente, no meio
evangélico tem surgido uma infinidade de modelos eclesiásticos e pastorais que,
além de negociarem as firmes bases da fundamentação bíblica e reformada, não
tocam no âmago dos problemas das pessoas e oferecem soluções apenas parciais
para suas realidades. Concordo
com Zabatiero que proclamação da Palavra é uma ferramenta singular para superar
o relativismo pós-moderno, que a visitação é um meio eficiente de vencer o
desamparo das pessoas no mundo atual, e que o aconselhamento é uma forma
adequada de mitigar a ansiedade por meio do acompanhamento e do processo contínuo
de orientação e aprendizado. Os
milagres não podem tomar o centro das nossas pregações sendo que o verdadeiro
centro do Evangelho é o Senhor Jesus Cristo.
Ademais,
percebe-se que muitas igrejas e pastores tem sido levado a reboque dos tempos
atuais, fazendo com que seus rebanhos sofram com as consequências de uma
religiosidade sem raízes e sem rumo. A Igreja deve perceber esta realidade
urgentemente e enfrentar os desafios com a sólida base de um ministério
pastoral bem preparado e contextualizado.
Por Matteo
Attorre

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