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domingo, 11 de março de 2012

PÓS-MODERNIDADE E DESAFIOS PASTORAIS


Em 1974, com o Pacto de Lausanne, tentou-se construir uma identidade do movimento evangélico. Ser evangélico, em primeiro lugar, significa comprometer-se com o proposito de Deus, reconhecendo a autoridade e o poder da Bíblia, reconhecendo também a unicidade e a universalidade de Cristo, afirmando que não tem salvação fora de Cristo, e anunciando o Seu retorno.

Todavia parece que no Brasil esta identidade não foi alcançada e hoje, na pôs- modernidade, cada um está indo para o próprio caminho desestruturando a já frágil identidade evangélica. Uma hermenêutica não saudável tem provocado uma interpretação das Escrituras errada e até perigosa. O ministério pastoral também perdeu a sua identidade e está enfrentando, aqui no Brasil, uma crise muito grande.

O pastor é quem conduz o rebanho de Deus, segundo a Sua vontade. O pastor é o responsável por alimentar este rebanho para que ele cresça forte e sadio. O pastor é aquele foi chamado por Deus para assistir ao rebanho em todas as suas tribulações. Devido a inúmeros escândalos, o ofício pastoral foi e está sendo questionada fora e até mesmo dentro da Igreja. Além disto, o ministério pastoral não está sabendo enfrentar os desafios pós-modernos. 

Uma característica que podemos destacar no mundo pós-moderno é a ansiedade. Ela é resultado da multiplicidade de escolhas de um mundo plural e onde não se tem parâmetros claros de verdade para direcionar estas escolhas. A consequência foi a pregação de um evangelho imediatista e barato. A igreja assim se envolveu cada dia mais em um estilo empresarial, buscando estratégias de marketing, com o objetivo de alcançar – a qualquer custo - o sucesso visível e imediato, com exaltação do próprio ministério pastoral no lugar de Jesus Cristo, não proporcionando assim um crescimento saudável dos membros e da igreja. O pastor jogou fora o discipulado, a visitação e o aconselhamento (falta de tempo e desinteresse) e fez a escolha de atrair por meios carnais homens carnais, utilizando depois para segura-los meios mais carnais ainda. Resultado? Uma comunidade religiosa supérflua que não segue e não cumpre as regras do Reino. Uma Igreja que perdeu a visão, a sua vocação missionaria, o seu foco, que fica estagnada, sem conseguir influenciar a sociedade.

Outra característica do pós-modernismo é o irracionalismo. As heresias modernistas caíram, mas agora heresias pós-modernas as substituem. O racionalismo, tendo fracassado, cede lugar ao irracionalismo – e ambos são hostis à revelação de Deus, ainda que de maneiras diferentes. Os modernistas não criam que a Bíblia fosse verdadeira. Os pós-modernistas lançaram fora completamente a categoria de verdade. Fazendo isso, já abriram uma caixa de Pandora de religiões da Nova Era, sincretismo e caos moral. (VEITH, Jr, Gene Edward. Tempos Pós-Modernos. p. 186s) Assim, não existem parâmetros absolutos, modelos universais ou paradigmas unívocos. 

Outra característica da pós-modernidade é o desamparo. Este desamparo, também oriundo da falta de parâmetros claros de verdade se desenvolve no exacerbado sentimento de isolamento, no individualismo. O individualismo é um dos traços mais marcantes da modernidade, no período do pós-guerra. Vivemos em uma época de exacerbado individualismo. O bem-estar pessoal é colocado acima do bem comum. Os interesses individuais estão acima dos direitos sociais. Muitas igrejas evangélicas, consciente ou inconscientemente, têm até mesmo adotado modelos eclesiásticos e pastorais que carregam em si a marca clara do mundo pós-moderno, especialmente no que se refere à teatralização, à dominação e à comercialização da religião, como se fora um artigo cultural qualquer.

 Julio Paulo Tavares Zabatiero, meu professor de Teologia Contemporanea na Faculdade Unida de Vitoria (ES), no seu livro “Apascentai a Igreja de Deus no Mundo Pós-Moderno” relaciona este modelo eclesiológico com a atividade pastoral. Assim, ele demonstra que a cultura massificada pela televisão tem tornado a sociedade pós-moderna na “sociedade do espetáculo”. Por esta causa, o ministério pastoral tem se desenvolvido cada vez mais em grandes eventos, que só contribuem para aumentar o sentimento de desamparo e solidão do povo. Nessa sociedade “midiática”, até o culto toma uma nova conotação: ao invés de centralizar-se na proclamação da Palavra de Deus, o culto evangélico tem tido o seu foco sobre manifestações visíveis da espiritualidade. Assim, a primeira tarefa pastoral que Zabatiero propõe é o cuidado com estas seduções da imagem e do espetáculo, não aceitando o papel que a pós-modernidade tem dado aos líderes religiosos. O pastor deve, então, cuidar primeiro de si mesmo.

A despeito de todos os dilemas e necessidades do tempo presente, no meio evangélico tem surgido uma infinidade de modelos eclesiásticos e pastorais que, além de negociarem as firmes bases da fundamentação bíblica e reformada, não tocam no âmago dos problemas das pessoas e oferecem soluções apenas parciais para suas realidades. Concordo com Zabatiero que proclamação da Palavra é uma ferramenta singular para superar o relativismo pós-moderno, que a visitação é um meio eficiente de vencer o desamparo das pessoas no mundo atual, e que o aconselhamento é uma forma adequada de mitigar a ansiedade por meio do acompanhamento e do processo contínuo de orientação e aprendizado. Os milagres não podem tomar o centro das nossas pregações sendo que o verdadeiro centro do Evangelho é o Senhor Jesus Cristo.

Ademais, percebe-se que muitas igrejas e pastores tem sido levado a reboque dos tempos atuais, fazendo com que seus rebanhos sofram com as consequências de uma religiosidade sem raízes e sem rumo. A Igreja deve perceber esta realidade urgentemente e enfrentar os desafios com a sólida base de um ministério pastoral bem preparado e contextualizado.

Por Matteo Attorre

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